A GUERRA DO FUTEBOL: EL SALVADOR x HONDURAS, 1969

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Os esportes são parte importante da vida cotidiana na sociedade moderna.  Mobilizando milhões por todo mundo – praticando, assistindo, trabalhando, torcendo e, principalmente, consumindo –, o esporte se faz presente em diversas esferas da vida social. Dentro deste quadro de presença dos esportes na sociedade moderna, é indubitável que o futebol ocupa uma posição de destaque.  Nenhuma outra prática da cultura popular envolve a tantos e desperta tamanho interesse e paixão.

Tal é a força de identificação nacional do futebol, que este esporte já foi até mesmo considerado o estopim de uma guerra entre El Salvador e Honduras, conhecida como a Guerra do Futebol. Na realidade, entre as verdadeiras causas da guerra está uma antiga disputa em relação à imigração de salvadorenhos para Honduras, a posição privilegiada de El Salvador no Mercado Comum Centro Americano (MCCA), por ser o país país mais rico e industrializado da região, e principalmente por uma reforma agrária hondurenha no início de 1969, que serviria de pretexto para a expulsão de salvadorenhos das terras do país e visava redistribuir suas terras a cidadãos hondurenhos.

 

 

 

 

 

Em junho de 1969, na mesma época em que o numero de salvadorenhos fugidos de Honduras aumentava, El Salvador e Honduras disputaram uma vaga nas eliminatórias para a Copa do mundo do México, em 1970. Os meios de comunicação de massa de cada país aumentavam as já existentes tensões, encorajando o ódio entre os cidadãos dos países vizinhos. Em 8 de junho de 1969, a equipe de El Salvador vai a Tegucigalpa, capital hondurenha, para a primeira das duas partidas agendadas entre as seleções. Sofrendo uma enorme pressão da torcida local desde a noite anterior ao jogo, os salvadorenhos não conseguiram segurar o empate e acabaram cedendo a vitória à seleção de Honduras nos últimos minutos do jogo. Honduras 1 a 0.

A indignação da população em El Salvador com o resultado da partida – e principalmente com o tratamento dispensado a seus atletas – foi enorme. Gilberto Agostino (2002) cita o caso da adolescente Amélia Bolamos que “revoltada com o tratamento dispensado à sua seleção, […] matou-se com o revólver do pai logo após o jogo” (p. 192). E logo depois fala de seu funeral, que “marcado por rompantes de nacionalismo e ódio, […] foi televisionado, sendo acompanhado por um cortejo militar, tornando ainda mais tensa a expectativa da partida de volta” (p. 192).

Com tanta tensão envolvendo o confronto de volta em San Salvador, no dia 15 de junho, não é de se estranhar que o embate em campo tenha se desdobrado para as ruas da capital. A torcida salvadorenha recebeu os rivais com ainda mais ódio do que sua equipe havia recebido em Honduras, tanto que os visitantes tiveram que se dirigir ao estádio em um veículo blindado (Agostinho, 2002, p. 192). Momentos antes da partida, uma bandeira de Honduras foi queimada e seu hino desrespeitado. Após a vitória por 3 a 0 da seleção local – que levaria a um novo confronto em campo neutro –, a violência tomou conta das ruas. Dezenas de torcedores hondurenhos foram agredidos e até mesmo mortos.

Neste mesmo período, a milícia paramilitar hondurenha “Mancha Brava” foi acusada de cometer atrocidades contra salvadorenhos, o que levou ao aumento do número de emigrantes a retornar à El Salvador. Assim, em 25 de junho, dois dias antes da partida de desempate entre os dois escretes, o governo de El Salvador acusou os hondurenhos de genocídio na ONU (Sack e Suster, 2000, p. 306; Agostino, 2002, p. 193). Os dois países fecharam as fronteiras e mobilizaram as suas tropas, enquanto as duas seleções se encontravam no estádio Asteca, na cidade do México, para o jogo de desempate. Após empate de 2 a 2 no tempo regulamentar, o time de El Salvador garantiu sua vaga na Copa do Mundo com um gol na prorrogação. El Salvador havia vencido o primeiro embate.

Em 14 de julho o exército de El Salvador invadiu Honduras, iniciando uma guerra que durou cinco dias. A Organização dos Estados Americanos (OEA) negociou o cessar fogo que entrou em vigor em 20 de julho, e levou as tropas salvadorenhas a abandonar o território ocupado ainda no início de Agosto. Apesar de curta, a guerra deixou aproximadamente dois mil mortos, a maioria composta por civis. No ano seguinte El Salvador disputou a Copa do Mundo, no México, e não passou da primeira etapa, tendo disputado três partidas, sofrendo nove gols e não marcando nenhum.

É de comum entendimento que o futebol não foi o elemento causador da guerra entre Honduras e El Salvador. Disputas e conflitos muito mais antigos entre os dois países vizinhos estavam em jogo, tanto que a guerra é chamada de Guerra das 100 Horas pela historiografia dos dois países (e por muitos outros também).

No entanto, pode-se inquirir quanto ao papel desempenhado pelo esporte na exarcebação das relações entre os dois países. Incitadas pela mídia através dos meios de comunicação de massa, as tensões que já projetavam as duas nações em direção ao conflito foram inflamadas pela idolatria ao esporte. Neste caso, pode-se entender melhor o papel desempenhado pelo futebol através de seu caráter simbólico. Como notou Eric Hobsbawn (2004),

o esporte internacional tornou-se […] uma expressão de luta nacional, com esportistas representando seus Estados ou nações, expressões fundamentais de suas comunidades imaginadas. […] A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com um nome. (p. 171).

A força do futebol como um fator de identificação de um indivíduo com sua pátria pode ser vista com facilidade em grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo de futebol masculino da FIFA. A cada quatro anos, o país anfitrião do evento – um dos maiores eventos internacionais da atualidade, ao lado dos Jogos Olímpicos – recebe milhares de pessoas de diversas partes do mundo. As ruas tornam-se coloridas com torcedores vestindo as cores de seu país, agitando suas bandeiras e cantando hinos e canções. Tal festival de nacionalismos é único. Nem mesmo os jogos olímpicos causam tamanha mobilização e despertam uma paixão tão grande entre o indivíduo e seu país. Mais do que qualquer outro esporte, o futebol carrega consigo grande capital simbólico de representação da nação.

É justamente este caráter simbólico do futebol que permite que este esporte desperte tamanha comoção entre movimentos nacionalistas, separatistas ou não, principalmente na Europa. Estes movimentos regionais que buscam a autonomia política costumam ver no esporte – e em especial no futebol – um meio de legitimação de suas aspirações nacionais.

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* Esse artigo foi originalmente publicado no site do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ, em 2009. Como não consegui encontra-lo na base de dados do site (www.tempopresente.org), decidi republicá-lo aqui, com mínimas modificações.

FUTEBOL E APAZIGUAMENTO: Alemanha x Inglaterra, 1938.

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1938. A Alemanha estava sob o regime nazista desde 1933 e já dava claros sinais de que a guerra estava próxima. No dia 14 de maio de 1938 as seleções de futebol da Inglaterra e da Alemanha se encontraram no Estádio Olímpico de Berlim, em um jogo amistoso que marcou a história. Sob os olhares de 105 mil espectadores, a equipe britânica cumprimentou os oficiais do regime com a saudação nazista e depois derrotou os alemães por 6 a 3. Mas o que teria motivado o encontro de dois países que pouco mais de um ano depois estariam se enfrentando em uma das mais devastadoras guerras da história? E por que teriam os ingleses feito a saudação à romana, um dos maiores símbolos do movimento fascista?

Ingleses e alemães fazem a saudação nazista.

Ainda sob o impacto dos efeitos da I Guerra Mundial e de seu alto custo de vidas humanas, Inglaterra e França buscaram evitar o confronto com a Alemanha de Hitler através do que se convencionou chamar de “Política de Apaziguamento”, na qual os países mantinham uma política de boa vontade e condescendência perante às investidas alemães na Europa (como no caso da remilitarização alemã e da anexação da Áustria com a Anschluss) e buscavam se aproximar do governo de Hitler. O auge dessa política se deu com a Conferência de Munique, realizada alguns meses após o jogo, que levou Churchill a proferir a célebre frase: “Vocês puderam escolher entre a desonra e a guerra. Vocês escolheram a desonra e terão a guerra”.

Dentro dessa política de apaziguamento, uma melhor relação com a Alemanha era fundamental, e o futebol foi um dos meios nos quais um símbolo de boa vontade entre os dois países poderia ser demonstrado.

Como resposta a um jogo realizado entre os dois países em 1935, em Londres (jogo que será comentado em outro post, no futuro), a Federação Alemã de Futebol (Deutscher Fußall-Bund), sob controle do partido nazista, convidou a seleção inglesa para um amistoso em Berlim, no Estádio Olímpico, que havia sido reformado para as Olimpíadas de 1936 e era um dos maiores símbolos da política esportiva do III Reich.

Para o Ministério dos Assuntos Exteriores britânico, o Foreign Office, o jogo era mais uma grande oportunidade para se estreitar as relações entre os países. Apesar do chefe da pasta, Robert Vansittart, ser um opositor do apaziguamento defendido por Neville Chamberlain, este escreveu a Stanley Rous, secretário da Football Association (que seria presidente da FIFA de 1961 a 1974), pedindo que este se certificasse de que a equipe inglesa realizasse um papel de primeira ordem em solo alemão, o que significava bom comportamento e um futebol exemplar.

A equipe alemã já estava treinando há algumas semanas na Floresta Negra e vinha embalada por uma série invicta de 16 jogos desde 1937. A seleção nazi era ainda mais forte após a anexação da Áustria ocorrida dois meses antes e da absorção de quatro jogadores austríacos. No início da década de 1930 a seleção austríaca era considerada uma das mais fortes da Europa e era chamada de Wunderteam e ainda tinha muitos bons jogadores. Matthias Sindelar, craque e líder do time, também foi convidado pelos alemães para se juntar à seleção, mas recusou.
Era assim compreensível o receio do Foreign Office, que desejava manter uma boa relação com a Alemanha, mas também reviver o prestígio esportivo britânico. Uma vitória era fundamental. Como parte da demonstração de camaradagem por parte dos ingleses, os jogadores britânicos, incluindo o jovem Stanley Matthews, então com apenas 23 anos, foi aconselhada pelo embaixador britânico em Berlim, sir Neville Henderson, a realizar a saudação à romana perante Hitler. Henderson teria dado a seguinte explicação aos jogadores: “Quando me encontro com Hitler, faço a saudação nazista porque é a cortesia normal esperada. Ela não demonstra nenhuma simpatia pelo que Hitler ou seu regime possam fazer”. Tendo em vista as instruções do embaixador e a pressão da federação por um bom comportamento, os jogadores se postaram à frente das tribunas e executaram a saudação nazista durante o hino alemão, perante às autoridades nazistas (Göring, Goebbels, Hess e von Ribbentrop assistiram ao jogo), ao grande público e a fotógrafos que marcaram o momento que entrou para a história do esporte, ainda que de forma negativa.

Iniciado o jogo, as amabilidades se encerraram e a equipe inglesa aplicou uma das maiores goleadas já sofridas pela Alemanha. Fechando o placar com um chute que furou a rede do Estádio Olímpico, os Ingleses derrotaram os alemães em casa por 6 a 3 e fizeram o que deles era esperado.

Para os alemães, uma derrota para os “pais do futebol” não era algo do que se envergonhar. Muito pelo contrário, o jogo havia sido um grande sucesso em termos de propaganda, em especial devido à realização da saudação à romana pelos visitantes. Pouco mais de um ano depois, os dois países estariam em guerra, como previra Winston Churchill.